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28/11/2003 15:15
Neste post pretendo expor minha opinião sobre o filme “O Anjo Azul”. Se você viu o filme, ficarei grato caso deixe aqui um comentário. Se você pretende ver o filme e não quer saber o final antes disso, recomendo que não leia o post. Mas se você ainda não viu o filme e não se importa de saber como ele termina, espero que esse post sirva para estimular seu interesse em assistí-lo...
Terça-feira (dia 25/11), assisti ao filme “O Anjo Azul”, de 1930. Foi a primeira vez que vi um filme do Expressionismo alemão. Vamos, então a uma breve explicação sobre Expressionismo. Ele foi um movimento artístico iniciado por volta de 1905, e teve seu ápice Alemanha após a 1ª. Guerra Mundial. Sua ótica voltava-se para o interior do homem, para seu lado negro e oculto, e para a forma como esses sentimentos reprimidos indubitavelmente explodiam para o mundo exterior (daí a famosa expressão “o grito expressionista”). Uma das maneiras de detectar (esteticamente) um filme expressionista é reparar nas formas oblíquas do cenário e o jogo de luz e sombra (nesse filme em específico isso fica nítido quando o personagem principal passeia pela cidade).
O filme “O Anjo Azul” conta a história do professor Immanuel Rath, um severo professor alemão que dá aulas de literatura inglesa para uma turma do que poderia ser considerado o “Ensino Médio” no Brasil. Esse professor possuía uma vida extremamente dedicada ao estudo, e aparentava ser bastante rígido em relação aos aspectos morais (em seu quarto havia a frase: “seja justo e não tema ninguém”). Ao ver no caderno de seus alunos a foto de uma dançarina de cabaré, o professor resolve ir pessoalmente até o local (cujo nome era “Anjo Azul”), para recriminar a dançarina (Lola) por estar seduzindo seus alunos e desviando-os do caminho da virtude. Entretanto, o próprio professor acaba cedendo aos encantos da dançarina.
O filme me surpreendeu de maneira agradável. Afinal, não esperava muita coisa de um filme com uma história aparentemente banal e de ares romanescos. Por muitos momentos, o filme chega até a parecer uma verdadeira comédia romântica, com cenas bastante cômicas (como o professor repreendendo um aluno que não sabia pronunciar o “the” ou imitando um galo após a festa de casamento). Entretanto, esses momentos felizes são apenas uma preparação para a decadência que virá em seguida. Por exemplo, a paixão que Lola sente por Rath de início pareceu “forçada demais” para ser convincente. Isso, que a princípio parece um defeito do filme, mais tarde contribuirá para aumentar as dúvidas geradas pelo desenrolar da história. Outro momento de suma importância é quando o professor Rath pede Lola em casamento. Pouco antes, ele havia sido demitido pelo diretor da escola, pois alguns alunos haviam descoberto seu caso com a dançarina e o ridicularizaram na escola, desmoralizando-o. Quando o ex-professor chega para conversar com Lola, ela está arrumando as malas. E, no momento em que Rath pede a dançarina em casamento, ela responde com uma gargalhada ao mesmo tempo sinistra e debochada. Tem-se a impressão de que ali, naquele momento, o filme descambaria para um final infeliz.
Surpreendentemente, Lola aceita o pedido do ex-professor. E embora as cenas seguintes nos dêem a impressão de que a história novamente se encaminharia para um final feliz, fica no ar a questão: como Rath poderá sustentar Lola, estando desempregado?
Não ficamos muito tempo sem resposta para essa pergunta. Sem conseguir emprego, Rath acaba tendo que se contentar em vender cartões com a foto de sua esposa para os clientes dos cabarés. O ex-professor ainda esboça sua vontade de tentar sair dessa situação humilhante; entretanto, cinco anos se passam e ele nada consegue. Por fim, Rath acaba sendo empregado como palhaço no show de mágicas do agente de Lola. Nesse momento, fica nítida a decadência de Immanuel Rath (percepção que é muito facilitada pela atuação do ator). Para piorar a situação, sua mulher volta a se prostituir a fim de ajudar no sustento de ambos.
O mágico anuncia ao ex-professor que eles irão voltar à terra natal de Immanuel, para fazer um show do “Anjo Azul”; todos os ingressos haviam sido vendidos, e havia uma grande expectativa em torno da “volta do professor Rath”. Immanuel inicialmente se nega à ir, mas acaba cedendo.
No regresso ao “Anjo Azul”, o ex-professor toma consciência do estado de degradação em que se encontrava. Estava ali, de volta à sua cidade, passando por uma situação vexatória (o trabalho como palhaço era realmente de dar pena) diante de ex-alunos e conhecidos. Havia perdido sua carreira, o respeito da sociedade, seus sonhos românticos e seu amor-próprio. O que lhe restara? Ali, diante do palco, Immanuel Rath percebe a dura realidade: não lhe restara nada. Ao ver sua mulher sendo beijado por outro homem, ele enlouquece e tenta agredi-la. No final, até mesmo a sanidade abandona o ex-professor.
No comovente final, Immanuel Rath, maltrapilho e louco, regressa à sua antiga sala de aula, vazia àquela hora da noite, e morre agarrado à mesa onde costumava lecionar. Essa atitude pode ser encarada como um símbolo de tentar recuperar sua existência antiga; mas, na verdade, durante todo o filme Rath nunca deixou de pensar como um professor, apesar de toda a sua ruína.
O filme suscitou interessantes discussões. Será que toda aquela rigidez e sobriedade que o professor Rath demonstrou no início da história eram mero fingimento? Será que ele realmente tinha uma consciência acerca dos valores morais que adotava, ou apenas seguia os valores que a sociedade lhe impunha? Ele poderia ter agido de alguma outra forma? De que maneira ele seria mais feliz (ou menos infeliz): continuando a viver no seu mundinho de ilusões e dedicando-se somente ao trabalho, ou libertando seu “grito interior” e acabar sendo destruído por ele? O filme nos deixa a impressão de que não há escapatória: de uma maneira ou de outras, ele acabaria morrendo agarrado à mesa... analogamente, como nós temos nos comportado me nossas vidas? Será que vivemos a nossa vida mecanicamente, sufocando o nosso “grito interior”? Será que realmente nós sabemos o que realmente nos traz felicidade? Será que para nós também não há escapatória?
Para finalizar, gostaria de dizer que o filme tem vários momentos de beleza, sendo que eu destacaria dois: Lola cantando “Falling in love again” para o professor Rath e o mesmo caminhando ensandecido de volta para a escola no final do filme.

enviada por fastasma na neblina






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